quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Slam - Minha Vivência

 Slam - Minha Vivência

(1º Slam do Parigot realizado em 23/08/2022)

Depois de quase dois anos em casa, reclusa por causa da pandemia combinada com problemas de saúde, as tão faladas comorbidades, fiquei em tele trabalho, sem o contato direto com a escola e com os estudantes. Desde o final de 2021 voltei para a escola, mas ainda cheia de receios, muita máscara e álcool gel, distanciamento e paranóia. Até que veio e quarta dose da vacina e um pouco mais de tranquilidade.
É provavel que o parágrafo anterior não explique nada para algumas pessoas, mas para mim traz o quanto foi difícil estar afastada da vida em comunidade e aumenta a alegria da retomada do contato diário com os estudantes e com os eventos escolares.
Desde 2018 tive um contato mais próximo com o Slam, no caso com uma apresentação do Slam da Guilhermina que aconteceu na escola estadual Reverendo Urbano, a atividade fazia parte do Festival do Livro de São Miguel organizado pela Fundação Tide Setubal. Foi uma experiência poderosa com a palavra, com os efeitos que os versos causaram nos jovens, com o brilho nos olhos.
Somente agora em 2022 tive a oportunidade de vivenciar novamente essa experiência. Dessa vez organizando e orientando os estudantes da escola estadual Pedro Viriato Parigot a fazer o nosso próprio Slam.
A Raquel, estudante do 9º ano, enviou uma mensagem para a vice diretora da escola pedindo para que nos inscrevessemos no Slam Interescolar. A Vice diretora perguntou se eu poderia fazer isso e eu disse que sim, era essa a minha intenção mesmo e já iria falar com ela sobre isso. Quando a ideia parte dos estudantes tudo fica mais fácil de organizar, de contar com a colaboração de todos na escola etc.
Fui lá, fiz a inscrição e em maio fui participar da oficina de formação com o Slam da Guilhermina, organizadores do Interescolar. Anos depois, reencontrando uma galera cheia de energia, que acredita no poder da cultura, da palavra, das pessoas. Foi muito bom estar ali no Instituto Singularidades ao lado da Cristina, Emersom, Chapéu, Legant e Amora.
Cara, o livro do Slam da Guilhermina, que conta a experiência com o Slam Interescolar, com o título Das Ruas Para as Escolas, das Escolas Para as Ruas, ganhou o prêmio Jabuti de fomento à leitura de 2021. Muito massa nossa cultura da periferia conquistar esse espaço, mas os perrengues e os corres pra conseguir patrocínio continuam!
A proposta do Interescolar é fazer um Slam em cada escola, com a organização dos professores, depois o campeão ou campeã da escola vai disputar com os campeões das outras escolas, esse ano foram mais de 200 escolas inscritas, e a terceira parte é a grande final, que será dia 8/11 no Teatro Sérgio Cardoso.
Oficina realizada, chegou a hora de fazer o Slam acontecer na escola. Bora colocar a mão na massa! Cheia de receios por nunca ter feito nada desse tamanho, mas segui em frente com medo mesmo. Bati uma papo com as 15 turmas da escola, uma de cada vez claro! Expliquei o que é Slam, suas regras, como funciona e o mais importante, pra mim pelo menos, deixei isso claro para eles, tinha que ser um evento divertido, cheio de energia, para celebrarmos a palavra, o direito de nos expressarmos.
Fiquei na dúvida se iriam aparecer estudantes dispostos a escrever poemas autorais e ainda declarmar na frente da escola toda. Pois me surprendi mesmo, foram quase 50 inscristos! Alguns não conseguiram, escreveram, mas não conseguiram declamar, travaram na escrita, mas muitos foram em frente e no dia do Slam 30 estudantes conseguiram declamar suas poesias. Foi lindo!
Antes do Slam acontecer os estudantes participaram de aulas de leitura em que puderam assistir performances gravadas dos competidores dos Interescolares anteriores, esse conteúdo está todo no YouTube do Slam da Guilhermina, além de participarem de várias aulas de leituras de poemas de diversos poetas, sem esquecer, é claro, da poesia periférica ou marginal, levei meus livros do Sergio Vaz, Raquel Almeida, Marcio Vidal Marinho, Jéssica Marcele, Jack Alves, Andrio Candido, Sarau dos Mesquiteiros, Slam Fluxo e do próprio Slam da Guilhermina. Infelizmente a escola ainda não tem muitos desses livros.
Na proposta do Interescolar também constava a visita de um poeta formador. Tivemos o prazer de conhecer o poeta e cantor Clamant. A oficina poética foi linda, os jovens ficaram encantados, hipnotizados com as palavras do poeta.

(Oficina poética com o poeta Clamant em 28/07)

Depois da oficina com o Clamant aconteceu uma coisa mágica, uma coisa muito especial. Tivemos a honra de receber o Slam Astro que realizou uma oficina poética em nossa escola. O poeta Julian, que foi estudante da nossa escola até 2020, era meu convidado para participar do nosso Slam e ele e a Prof. Bruna tiveram a ideia de fazer essa oficina poetica com a gente. Eu já disse que essas experiências são potentes, afetivas, mas não tinha ideia que seria tanto. Foi uma tarde maravilhosa e a Prof. Bruna fez uma demonstração de como seria no dia do Slam pra valer, nossos estudantes, que já estavam com os poemas prontos, declamaram. Como ainda não havíamos criado o nosso grito de paz usamos emprestado o grito do Slam Astro e a energia dos gritos e das palmas envolveu a escola inteira.

(Oficina poética com o Slam Astro em 12/08)

No dia 23/08 realizamos o 1º Slam do Parigot! Foram duas etapas, na primeira todos os 30 estudates/poetas declamaram seus poemas e foram avaliados por 5 jurados. Foi um evento restrito aos participantes, mas já contávamos com o nosso grito de paz: "Jovens poetas em ação - vai Parigot nos dê inspiração". Dessa primeira etapa saíram 5 poetas com maiores pontuações e partimos para a segunda etapa, essa contando com a participação da escola interira como público. Foi mágico! 
Tivemos o privilégio de ter na abertura a Prof. Arlete cantando uma canção, a Prof. Daiana declamando um cordel sobre nosso Slam, nossos ex estudantes Manuela e Juliam declamando poesias e compondo o jurí.
As três vencedoras foram: 1º lugar Raquel, 2º lugar Isabele e 3º lugar Giovana. Parabéns meninas, foi lindo demais!

Pra terminar essa conversa vou deixar registrado aqui o poema que escrevi após ser desafiada pela Prof. Aline. Aceitei o desafio né, já que eu estava incentivando a escola inteira a escrever!

Existimos, a que será que se destina? 

Nos perguntou Caetano Veloso de luto pelo amigo perdido pra tristeza.

Existimos, a que será que se destina?

Existimos mulheres, pra gerar, pra parir, pra cultivar a beleza

Existimos professoras, trabalhadoras, cidadãs, 

lutando contra as injustiças

lutando por garantia de direitos.

Empenhadas em multiplicar a gentileza.

Existimos como “Inspiração para aqueles que estão tentando subir

Dando a mão praquele que não se deixa cair”

Mas a resposta certa, única, não existe

Ela é individual, cada um vai construindo seu caminho a medida que caminha

Posso dizer de mim

A minha existência se destina a ser uma mulher, mãe, filha, professora, feminista, 

que acredita no poder da educação, da beleza das coisas simples, da poesia, 

da amizade, da gentileza, do amor empregado em cada gesto.

Vou existindo, tentando plantar flores e remover as pedras do caminho, seguindo os passos de Cora Coralina.

Tentando não ser máquina ao ouvir Alice Ruiz

Aprendendo a lição de Sergio Vaz: Educador é aquele que confecciona asas. E voa junto.

Repetindo os versos de Lourena: “Meus olhos se abriram nesse caos

E meu corpo é fechado para todo mal

Manter fé no que não se vê

Seguir a caminhada, seja o que Deus quiser”




sexta-feira, 30 de abril de 2021

Niède Guidon e o Parque Nacional Serra da Capivara

Niède Guidon e o Parque Nacional

 Serra da Capivara

Imagino que vocês já ouviram muitas histórias, contos de fadas, fábulas, contos de assustar e mais um tanto de outros gêneros literários como o cordel, a poesia, as parlendas. E mais um outro tanto de gêneros textuais que estão presentes no nosso dia a dia, como os bilhetes, as mensagens instantâneas nas redes sociais, receitas culinárias, as bulas de remédios... eita que a lista é longa!!

Mas hoje eu vim contar pra vocês um tipo de história diferente, a história de uma pessoa. O nome dela é Niède Guidon. Se ela mesma tivesse escrito um livro sobre sua própria história, o gênero literário seria autobiografia, mas para o nosso papo de hoje eu vou contar a história que as escritoras Duda Porto de Souza e Aryane Cararo escreveram sobre a Niède, sendo assim o nosso gênero literário é a biografia.

Antes ainda de entrar na história da Dra. Niède, calma não estou enrolando, eu só quero explicar porque escolhi contar pra vocês a história de uma cientista brasileira, sendo que vivemos dentro de um universo de histórias. É porque nesse momento da nossa vida a ciência está sendo fundamental, cientistas descobriram rapidinho o que era essa doença nova, esse vírus, e estão a cada dia descobrindo formas de sairmos dessa situação, com as vacinas, por exemplo. Vamos conseguir, tenho certeza. Mas o mundo sempre vai precisar de cientistas. Quem sabe alguém aqui se anima!

A Niède nasceu em 1933 na cidade de Jaú, no interior do estado de São Paulo. Menina curiosa, queria sempre saber como funcionavam as coisas, por que os olhos das bonecas abriam e fechavam? O que é que tinha dentro da barriga das bonecas? Sabe aquelas bonecas que falam? Por que elas falam? Como funciona o aparelhinho que faz sair o som? Por essas e por outras a família inteira tinha certeza de que a menina seria médica e ela gostava mesmo de saber de tudo. Mas aos finais de semana... ela ia sempre ao sítio dos avós. Lá ninguém segurava a menina, a diversão dela era correr pra todo lado e subir e descer das árvores.

A menina cresceu e foi prestar o vestibular pra medicina na USP – Universidade de São Paulo, quis o destino, que no dia de uma das provas ela tivesse uma dor de cabeça gigante que a fez perder a prova. A saída foi fazer faculdade de história natural pensando em depois trocar para medicina, porém a nossa menina, que já estava uma moçona ficou encantada com o curso de história natural, lá ela estudava sobre as plantas, os animais e sobre a terra. Não deu outra, ela se formou em história natural e foi ser professora.

Mas a nossa moça era danada de curiosa e queria saber mais sobre arqueologia, queria estudar a pré-história, os seres humanos e animais que viveram naquele tempo. Decidida como ela só, e vocês verão o quanto essa moça era decidida, ela partiu para a França e foi estudar arqueologia na Sorbonne e na Universitè de Paris, trè bien (muito bom), oui (sim).

Com a cabeça cheia de novos conhecimentos e muita vontade de estudar a pré-história brasileira, Niède voltou para São Paulo e foi trabalhar no Museu do Ipiranga, o Museu Paulista que é ligado à USP.

Preciso fazer uma observação aqui, esse Museu é lindo!! Ele está fechado para reformas faz um tempão, mas se tudo der certo, ele será reaberto ano que vem em comemoração ao bicentenário da Independência. A Independência do Brasil foi dia 7 se setembro de 1822.

Em 1963 a Dra Niède organizou uma exposição de fotos de desenhos rupestres brasileiros, lá no Museu do Ipiranga. Num certo dia, apareceu um senhor muito distinto que pediu para conversar com a responsável pela exposição. Nossa cientista recebeu aquele senhor, ela era prefeito da cidade de Petrolina, Pernambuco, ele mostrou pra Niède uma foto com desenhos rupestres e disse que lá na terra dele, perto da cidade em que ele era prefeito tinha desses “desenhos de índio”, as pessoas da região chamavam assim aquelas misteriosas imagens pintadas nas rochas. Niéde ficou interessadíssima, já contei pra vocês que ela era danada de curiosa né?. Ela pegou todas as informações de como chegar até os desenhos e já traçou um plano de ir até lá. Essa conversa aconteceu em julho e no dezembro seguinte ela estaria de férias e iria conferir de pertinho os desenhos.

Mas no meio do caminho tinham estradas péssimas, que ainda por cima foram castigadas por grandes chuvas. Nossa pesquisadora aventureira e seu carro ficaram pelo caminho. Frustrada, mas sabendo que a natureza tem uma força descomunal, ela deu meia volta.

Em 1964 as coisas ficaram estranhas no Brasil, uns chamam o que aconteceu de golpe, uns chamam de contrarrevolução, independente do nome que se use, o fato é que muitas pessoas, dentre elas inúmeros professores da USP foram denunciados e presos. A Niède foi denunciada como comunista e teve sua prisão decretada, mesmo sem nunca ter participado de nenhum partido político. A tia dela ficou sabendo disso e a colocou num avião direto para Paris. Em Paris ela teve que se virar, como já tinha estado por lá anos antes conseguiu um trabalho de assistente com uma antiga professora.

As imagens dos desenhos rupestres pintados nas rochas no interior do Piauí não saiam da cabeça dela, mas por muito tempo não teve jeito, a distância impedia uma nova tentativa de visita.

Em 1970 Niède veio ao Brasil com uma missão francesa para estudar povos indígenas de Goiás, ela se organizou para visitar os desenhos em São Raimundo Nonato no Piauí, chamou umas amigas arqueólogas que conheceu na USP e foram as três num jipe 4X4 mato a dentro. Chegando na cidade, elas conseguiram a ajuda de algumas pessoas que conheciam bem aquele lugar e foram até lá mostrar os desenhos para as pesquisadoras. Elas ficaram encantadas, eram muitos desenhos, diferentes de todos que a Dra. Niède já tinha visto em seus estudos. Ela fotografou o máximo que conseguiu e voltou para Paris.

Com as fotos que tirou a Niède conseguiu que a França criasse uma missão franco brasileira, olha, isso é um negócio complicado, porque envolve embaixadas, universidades e dinheiro, mas ela não descansou e foi conversar com muitas pessoas para conseguir realizar a pesquisa no Piauí. Assim, em 1973 aconteceu a 1ª missão franco-brasileira que a partir de 1978 passou a vir ao Brasil todos os anos trazendo professores e muitos alunos das universidades.

Foi tão grande a quantidade de pinturas e objetos pré-históricos encontrados naquela região que em 1979 a Dra Niède e a missão francesa conseguiram que o governo brasileiro criasse um parque nacional naquele lugar, o Parque Nacional Serra da Capivara.

Foram tantas e tão importantes descobertas realizadas no Parque que em 1991 a Unesco – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura - declarou que o Parque Nacional Serra da Capivara é um Patrimônio Cultural da Humanidade.



Pra vocês terem uma ideia a Dra Niéde encontrou sinais de humanos na região datados de 50 até 102 mil anos. Isso causou um alvoroço no mundo da ciência, até então os cientistas diziam que o Homo Sapiens, essa nossa espécie sabe, chegou às Américas há 12 mil anos. Como assim que essa pesquisadora aí está dizendo que encontrou indícios de 102 mil anos??



Mas a nossa cientista curiosa e braba demais, não se deixou abater continuou suas pesquisas, porque ela sabe que em ciência é assim que as coisas acontecem, você faz uma descoberta que pode ser contestada ou confirmada por outros estudos, por novas descobertas.

Esses estudos encontraram muitas evidências da presença do homem na Serra da Capivara, ela encontrou ferramentas de pedra lascada, fogões de pedra com carvão e restos de animais, cerâmicas, além dos milhares de desenhos rupestres. Todas essas descobertas foram estudadas em laboratórios da Inglaterra e da França, com tecnologias avançadas que analisam o carbono 14 e conseguem determinar a idade desses fósseis.

Além das descobertas relacionadas a presença do homem, a Dra Niède e muitos outros pesquisadores que passaram pelo Parque nesses 50 anos encontraram fósseis de animais marinhos, é aquele lugar no meio do sertão, do semiárido, um dia já foi mar, mas isso já faz milhares de anos. Encontraram também uma megafauna com animais que podiam chegar a 3 metros de altura como a preguiça gigante e pesar toneladas como o mastodonte e o tatu gigante, não menos importante, e legal demais, é saber que lá também já viveu o tigre dente de sabre. No tempo em que esses grandes animais viviam lá o clima era diferentes, era úmido e tropical, conforme o clima foi mudando esses animais foram sendo extintos, mas há indícios de que viveram lá ao mesmo tempo que os homens!

Atualmente o clima da região é semiárido e os animais que vivem lá são bem menores, como o tamanduá bandeira, tamanduá mirim, várias espécies de tatus, veados, macacos prego, mocó (espécie de roedor), onça pintada, onça vermelha e diversas espécies de aves, lagartos e serpentes.

Esses 50 anos de muito trabalho e estudo de muita gente, mas especialmente da Dra, Niède Guidon, incansável guerreira pela preservação do Parque e pela melhoria de vida das pessoas da região, resultaram num Parque com estrutura para receber milhares de visitantes, uma fábrica de cerâmica com artesãos que são moradores das cidades do entorno do Parque e dois museus, o Museu do Homem Americano e o novinho Museu da Natureza. Soma-se a isso diversos projetos e parcerias com escolas e universidades. Ah! E é muito importante dizer que todos os guias do parque também são moradores da região.

Uma vez um jornalista perguntou à Niède o que ela encontrou lá no Parque, além das conquistas profissionais e científicas, ela disse: “eu encontrei e uma beleza fantástica. Nos meus piores dias, quando eu estou pra estourar, vou lá pro Parque e as coisas se acalmavam, porque a beleza da natureza é uma coisa fantástica, a beleza de todas as sociedades que nos precederam e sobretudo as que viveram lá, que você encontra nas pinturas, que era uma sociedade feliz e rica. Quando eu comparo com a miséria de hoje, principalmente das crianças, nós trabalhamos com mutas crianças, eu acho que nós temos que resgatar. E é isso que me segura lá. Eu acho que o Piauí vai voltar a ser o que ele já foi, uma região de riqueza e felicidade.


(Pesquisa e texto desenvolvidos para a Semana Literária da Escola Municipal Anselmo Duarte a convite da minha querida amiga Prof. Silvana. Foi uma honra, muito obrigada!)


Referências

Amaral, Aurélio. 5 animais gigantes que habitaram o Brasil há milhares de anos. Nova Escola. 2015. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/225/5-animais-gigantes-que-habitaram-o-brasil-ha-milhares-de-anos

Fontenelle, Astrid. Mulheres Admiráveis – Niède Guidon. 2020. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=4M5oq6jjrQk>

Souza, Duda Porto de; Cararo, Aryane. Niède Guidon. Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil. São Paulo: Seguinte, 2017.

TV Cultura. Niède Guidon. Roda Viva 17/11/2003. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?vR1Uu6xjN5nU&list=WL&index=45&t=1s>

TV Cultura. Niède Guidon. Roda Viva 29/09/2014. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=AXa2e5AcU0E&list=WL&index=48>

TV Gazeta. Todo Seu, Grandes Mulheres – Niède Guidon. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=a-fWRPAI9Fg&list=WL&index=52>

Univesp TV. Vida de Cientista – Niède Guidon, 10/07/2014. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=LY6kADIdIiU&list=WL&index=63>

Ver Ciência Mostra Internacional de Ciência na TV. Niéde, uma Pré-História. 2018. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=VLXlQGibMOU&list=WL&index=64>

 


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Relato sobre a minha atuação como orientadora do Grêmio Estudantil

Relato sobre a minha atuação como orientadora do Grêmio Estudantil, de outubro de 2015 a setembro de 2019

Lado Leste - São Paulo


Em outubro de 2015 retornei à escola após um longo período de afastamento médico. Impossibilitada de lecionar, assumi uma função atribuída pela diretora da unidade, cuidar dos projetos da escola. Além dos projetos pontuais que a escola desenvolvia havia o Grêmio Estudantil que precisava de um professor orientador. Formalmente essa atribuição seria do Professor Mediador de Conflitos, porém a escola estava com sérios desfalques em sua equipe, para mais de 1 mil alunos havia apenas uma inspetora, dessa forma, o tempo do Professor Mediador era bastante preenchido pelos diversos conflitos do dia a dia escolar, sendo assim, resolvemos desenvolver o trabalho com o Grêmio em parceria.

Outubro de 2015 também marcou o início de uma grande insatisfação da sociedade e dos alunos, após o anúncio do Governador em reestruturar a rede de mais de 5000 escolas espalhadas pelo Estado de São Paulo. Na reestruturação havia a previsão de tornar cada escola para atendimento exclusivo ao Ensino Fundamental 1 Anos Inicias, Ensino Fundamental 2 Anos Finais ou Ensino Médio, dessa forma separando irmão mais velhos dos mais novos e, em muitos casos, aumentando a distância entre a escola e a casa dos estudantes. Esse fato causou grande reação entre os estudantes secundaristas, muitos grupos, alguns ligados aos Grêmios Estudantis, ocuparam as escolas e permaneceram nelas por longos períodos, a situação toda só se resolveu com a desistência do Governo Estadual em realizar a reestruturação.

É nesse clima que começo as minhas atividades numa escola em que não houve ocupação, não havia organização estudantil para isso, porém aconteceram discussões para a formulação de orientações para a eleição do Grêmio Estudantil do ano seguinte. Alguns estudantes do Ensino Médio estavam muito interessados no movimento de ocupação das escolas estaduais e queriam fortalecer a participação dos alunos como um todo.

No início de 2016 a Secretaria Estadual de Educação desenvolveu um cronograma organizando e institucionalizando o processo eleitoral, digo isso pois cada passo do processo, obrigatoriamente, deveria ser reportado à direção da escola e a Diretoria de Ensino. Nas orientações enviadas para a escola constavam as datas para cada passo do processo eleitoral e referências bibliográficas, produções do Instituto Sou da Paz, a cartilha Grêmio Estudantil é Hora de Participar e o Caderno Grêmio em Forma.

O primeiro passo do processo foi informar sobre a função da escola e sua importância para todos, que aconteceu por meio de visitas às turmas realizadas pela atual gestão do Grêmio acompanhados por mim. Seguido por convocação para assembleia geral, escolha dos representantes de sala, realização da assembleia com a escolha da comissão eleitoral, formulação e votação do estatuto do grêmio, abertura de inscrições para chapas, campanha eleitoral, votação, apuração e posse da diretoria registrada em ata.

Quando a comissão eleitoral foi escolhida discutimos as regras para a formação das chapas, algumas ideias já haviam sido apresentadas no final do ano anterior, sob influência do movimento de ocupação das escolas. Os alunos gremistas entendiam que as chapas precisavam representar cada grupo de estudantes da escola, dessa forma ficou combinado que as chapas precisariam ter um número equilibrado entre meninos e meninas e contar com estudantes dos três períodos letivos, manhã, tarde e noite, assim obrigatoriamente haveria em cada chapa estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental e estudantes do Ensino Médio, os dois ciclos atendidos pela unidade escolar.

A escola não possuia um local adequado para a realização da assembleia geral, dessa forma, resolvemos realizar primeiro a votação para escolha dos representantes de turma e posteriormente a assembleia dos representes. Essa decisão foi tomada em comum acordo com a gestão vigente do Grêmio, representantes de turma e grupo gestor da escola.

No material produzido pelo Instituto Sou da Paz há um modelo de Estatuto para o Grêmio, fizemos a leitura do estatuto na assembleia, na qual foram mantidos a maioria dos artigos. As alterações mais significativa aprovadas foram: a duração de 2 anos de mandato para a chapa eleita e a possibilidade de qualquer aluno matriculado na escola participar da admnistração do Grêmio, mesmo sem ter sido eleito, como colaborador. Após a assembleia o processo eleitoral aconteceu normalmente. Na posse da chapa vencedora as demais chapas foram convidadas a participar do Grêmio, mas infelizmente poucos alunos dessas chapas continuaram a participar.

Durante todo o tempo em que estive na nesta escola o Grêmio participou de reuniões de Conselho de Escola e das reuniões do MMR - Método de Melhoria de Resultados, projeto que a príncipio era experimental e em 2019 passou a vigorar em todas as escolas do Sistema Estadual de Ensino. Em 2016 o Grêmio participou do 1º Mini Seminário - Conhecer, Agir, Transformar organizado pelo Diretoria de Ensino em parceria com a Unifesp Campus Guarulhos. Nesse Mini Seminário os alunos apresentaram a palestra “Jovens Multiplicadores para a Prevenção ao uso de Drogas” em duas ocasiões, primeiro para um grupo de quatro escolas no Auditório de uma delas e depois para 20 escolas da Diretoria de Ensino no Auditório na Unicid. Durante o primeiro semestre do ano, uma vez por semana, a equipe do Grêmio se reunia para pesquisar, estudar e preparar a apresentação. Dessa preparação surgiu a ideia de continuar as reuniões semanais de formação, mas a partir de então com temas definidos pelos estudantes. Toda semana algum aluno se preparava para trazer informações sobre o assunto escolhido e compartilhar com os colegas, eu sempre preparava material de leitura e audiovisual para esses encontros que aconteciam 1 hora antes do horário de aula dos alunos, assim eles não perdiam as aulas regulares.

Nesses encontros semanais os alunos também planejavam suas ações, muitas delas em articulação com a gestão escolar ou com projetos de professores. Além disso, os integrantes do Grêmio produziam textos, desenhos e vídeos para serem compartilhados nas redes socias da escola (blog, Facebook, Youtube e o jornal eletrônico Jex) sobre temas relacionados aos encontros de formação, projetos da escola ou concursos.

Os estudantes do Grêmio participaram de vários concursos, por exemplo, Olimpíada da Língua Portuguesa, Concurso de Redação do Hospital do Amor de Barretos, Concurso Literário Faça Parte Dessa História FNDE, Concurso Minha Arte na Capa SEDUC, Concurso Cultural da Semana de Cultura de Paz - Instituto Ives Ota, Concurso Escritores pela Cultura de Paz e Concurso de Redação de Cartas - UPU União Postal Universal. Além dos concursos voltados à educação política: Parlamento Jovem Municipal, Parlamento Jovem Estadual e Jovem Senador.

No cotidiano da escola os alunos do Grêmio tinham uma responsabilidade diária, eles cuidavam da rádio escolar. A Rádio Jovem Legendário era uma pequena sala localizada no pátio, equipada com mesa de som, computador, e caixas de som espalhadas pelo pátio. Os alunos eram os responsáveis por tocarem músicas nos intervalos, os demais alunos da escola podiam solicitar suas músicas preferidas presencialmente ou fazendo comentários na página do Facebook do Grêmio. As regras em relação as músicas que poderiam tocar, volume, organização dos responsáveis e demais questões relacionadas à rádio também eram debatidas nas reuniões semanais de formação. Um detalhe sobre as nossas reuniões, elas sempre começam com a leitura de um poema, as vezes escolhido por mim, as vezes por algum dos alunos.

Uma vez por ano os alunos organizavam um programa de rádio com entrevistados e saraus temáticos (questões de gênero, consciência negra, escritores da periferia) para apresentarem no Festival do Livro e da Literatura de São Miguel Paulista, organizado pela Fundação Tide Setubal.

Contando tudo isso pode até parecer que as coisas aconteciam facilmente, ou que os alunos eram super engajados, participativos e disciplinados. Eles eram incríveis, criativos, afetuosos, mas frutos de um bairro extremamente carente e violento, essas ausências se manifestavam de diversas formas dentro da escola, muita indisciplina, pouca dedicação aos estudos e excesso de conflitos. Hoje alguns desses alunos já têm filhos, alguns estão na faculdade, alguns ainda estudam lá, alguns estão procurando um caminho, um deles está na Universidade Federal do ABC e um deles, tristemente, infelizmente, perdeu a vida na violência da cidade.


terça-feira, 2 de julho de 2019

A importância da família no processo de educar

A importância da família no processo de educar

No dai 13 de março de 2019, por um instante, todos ficamos sem ar, principalmente nós que dedicamos nossas vidas à educação das novas gerações. A Escola Estadual Raul Brasil perdeu 10 valorosas vidas nas mãos de jovens que se tornaram assassinos e suicidas.
Esse fato abalou profundamente a todos e fez com que algumas medidas fossem tomadas. Quatro meses depois ainda não vimos nenhuma mudança na organização do sistema de ensino no que diz respeito à segurança ou à saúde mental de estudantes, professores e funcionários.
No mesmo mês de março a Diretoria de Ensino Leste 1 promoveu uma palestra sobre "A importância da família no processo de educar" ministrada pela Professora Luciene Alves de Souza. Nossa escola foi convidada a participar e foi representada por mim, Professora Fabiana e pela Vice diretora Verônica. Lá encontramos a Professora Tânia, que já foi nossa vice diretora e agora é Mediadora de Conflitos em outra escola. Sei que já se passaram alguns meses, mas vale a pena deixar o registro dos principais pontos da palestra.

A importância da família no processo de educar - Resumo


  • As drogas eliminam o senso crítico. Muitas vezes o álcool é permitido dentro de casa.
  • Vulnerabilidade: Os adolescentes que abusam de drogas ficam vulneráveis à gravidez, DST (Doenças sexualmente transmissíveis), violência, abuso ou exploração sexual.
  • É possível se cuidas buscando os serviços de saúde, ex. UBS e CAPES.
  • Estratégias para diminuir as vulnerabilidades: entender e oportunizar momentos de prazer; conhecer o real perigo das drogas; evitar o discurso proibicionista/terrorista.
  • Motivos que podem levar ao uso de drogas: curiosidade; influência dos amigos; prazer; aliviar dores, angustias, problemas familiares e escolares.
  • Pedir ajuda é sinal de inteligência, não é vergonha.


Mitos sobre o suicídio: quem quer se matar não avisa, faz; falar sobre suicídio pode incentivar mais suicídios; quem pensa em suicídio já desistiu de viver.
Verdades sobre suicídio: pensar em suicídio é comum; o suicídio está vinculado a algum transtorno mental; o suicídio é prevenível; quem está por perto pode ajudar alguém que pensa em suicídio.

Dicas de projetos para trabalhar com a temática


  • Rodas de conversa: tomar cuidado para não julgar; incentivar a fala e a escuta.
  • Tutores da mediação: mediadores mirins, dois alunos por sala que fazem o papel de mediadores; são treinados pelos professores mediadores de conflito para notar as diferenças de comportamento; faltas; bullying; brigas; auto mutilação; comportamentos que podem gerar conflitos.


Quem pratica e sofre bullying tem problemas, é preciso investigar as causas. A prática causa extremo sofrimento e pode levar o adolescente ao suicídio ou a atitudes como os assassinatos em massa. É sempre necessário prestar atenção às mudanças de comportamento.

Nós, da E.E. Reverendo Urbano de Oliveira Pinto temos a esperança de que essa situação será resolvida ou amenizada, nossos jovens têm o direito de terem uma vida melhor, protegidos, gozando de plenos direitos e tornando-se cidadãos críticos e ativos na sociedade.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Educação Inclusiva: Desafios e oportunidades

Educação Inclusiva: Desafios e oportunidades
Evento realizado no Espaço Civi-co em 19 de fevereiro de 2019

Organização: Associação Nova Escola, Instituto Rodrigo Mendes e Fundação Volkswagen.


Fomos convidados pela Revista Nova Escola para participar do evento Educação Inclusiva: Desafios e
Oportunidades. Importante tema a ser debatido e estudado por educadores, sociedade civil e órgãos
governamentais, pois segundo a Constituição Federal de 1988 a educação é direito de todos os
brasileiros e brasileiras.
O evento foi organizado em duas mesas de debates, a primeira denominada “A realidade de quem
está em sala de aula” e a segunda “Os avanços na educação inclusiva”.
Na primeira mesa “ A realidade de quem está em sala de aula” foram ouvidos: Mônica Rocha, ex-aluna
do Cieja, lutadora de Tae Kouon Do e poeta; Eda Luz, ex-diretora do Cieja Campo Limpo; Paulo Cesar,
professor da Emef Paulo Nogueira Filho e Maria da Paz Castro, especialista em educação inclusiva.
A Mônica tem síndrome de Down e contou sobre a sua experiência como aluna, da dificuldade que
tinha na escola, inclusive em se relacionar, contou que se sentiu incluída quando teve a atenção dos
professores, quando foi ouvida. O esporte a ajudou muito, tanto em seu desenvolvimento motor,
quanto no relacionamento com as outras pessoas.
Para Eda Luz uma das coisas mais importantes para o sucesso da educação inclusiva é a escuta ativa,
ela sugeriu a organização das aulas em semi círculo, possibilitando que os estudantes se olhem,
possam ser ouvidos, que tenham voz inclusive na preparação das aulas com a sugestão de temas
de estudo. Nenhuma escola ou professor está preparado para tudo, mas é preciso estar aberto para
aprender, para olhar as situações e agir. Um dos caminhos é o aprendizado coletivo entre educadores
dentro da escola. Ela é, sem dúvida, uma entusiasta da educação!
O professor Paulo Cesar contou sobre a sua experiência com educação inclusiva na Emef em que
trabalha, mas, acima de tudo, ele afirma que quando tratamos o outro da forma que gostaríamos de
ser tratados as relações tendem a ser favoráveis e enriquecedoras. Os alunos não são apenas de um
ou outro professor, eles são alunos da escola, são alunos de todos os professores, a escola precisa ser
um coletivo.
A especialista em educação inclusiva, Maria da Paz, traz algumas reflexões práticas sobre o ensino
inclusivo, ela enfatiza a importância de ouvir, de olhar para a criança em sua individualidade, sem a
infantilizar, independente do CID (Código Internacional de Doenças). É importante observar antes de
propor as atividades, pois o indivíduo sabe bastante sobre ele mesmo. Para Maria da Paz, o professor
precisa aceitar que vai errar e que a partir do erro pode aprender muito mais.
Na segunda mesa “Os avanços na Educação Inclusiva” ouvimos a Eliane, Secretária de Educação de
Amparo; a Carla, da Fundação Volkswagen e o Luiz Conceição do Instituto Rodrigo Mendes.
A Eliane contou sobre sua experiência na prefeitura de Amparo, disse que é função da educação
especial tornar acessível o que está inacessível, para isso o professor precisa observar seu aluno e
ouvi-lo. Enfatiza que o horário coletivo de formação dos professores, no qual aprendem e trocam
experiências com seus pares, ajuda a lidar com as diferenças existentes na escola.
A Carla, da Fundação Volkswagen, afirma que hoje o heterogêneo é a normal e que a escola é o
espaço público que permite o privilégio de permanecer aprendendo. Nos conta também que a
Fundação Volkswagem em parceria com o Instituto Rodrigo Mendes e a Associação Nova Escola
publicaram os Cadernos do Brincar, são dois volumes que focam nas brincadeira na educação infantil.
O volume 1 tem o subtítulo
Propostas de reflexão sobre brincadeiras e práticas inclusivas para professores da Educação Infantil
e o volume 2 “Propostas práticas para brincadeiras inclusivas na Educação Infantil”, ambas as
publicações estão disponíveis para download.
O Luiz Conceição, do Instituto Rodrigo Mendes, fala que a educação tem que ser para todos e para
cada um, fala da importância de se eliminar as barreiras e pensar em modos diferentes de ensinar,
pensar nas múltiplas inteligências, e que isso pode acontecer desde o planejamento docente. Ele cita
um possível caminho para essa eliminação de barreiras, o desenho universal para a aprendizagem,
que se trata de um modelo prático que visa ampliar as oportunidades de desenvolvimento de cada
estudante por meio de planejamento pedagógico contínuo, somado ao uso de mídias digitais.
Para ele, a perspectiva inclusiva é responsável por possibilitar que a aprendizagem aconteça nos mais
diversos cenários. As soluções são individuais, são condutas locais, cada escola vai encontrar seu
melhor caminho. O ensino é coletivo, mas a aprendizagem é individual, cada um tem seu tempo e
modo de aprender. A família dos estudantes podem ser a barreira e/ou o facilitador do processo de
aprendizagem, depende muito de como será feito o diálogo entre ela e a escola.
O Instituto Rodrigo Mendes disponibiliza alguns materiais no site: https://diversa.org.br/.
A Associação Nova Escola lançou no mês de fevereiro uma edição especial sobre inclusão, na qual
dialoga com as pessoas que participaram das duas meses deste encontro e também com uma
publicação anterior da revista de quase 10 anos. Vale a pena conferir.
Você encontra muito conteúdo também no site da revista Nova Escola: https://novaescola.org.br/#.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Nunca me sonharam - Resenha


Nunca me sonharam - Resenha

O documentário Nunca me Sonharam foi lançado em junho de 2017,
dirigido Cacau Rhoden, produzido por Maria Farinha Filmes e
apresentado pelo Instituto Unibanco, apresenta histórias da vida escolar
de diversos jovens brasileiros de oito estados e de todas as regiões do país.
O título do documentário foi retirado da fala de um dos estudantes
entrevistados, Felipe Lima, de Nova Olinda (CE), ele diz: “Eles nunca
me sonharam sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo um professor,
nunca me sonharam sendo um médico, não me sonharam. Eles não
sonhavam e nunca me ensinaram a sonhar. Tô aprendendo a sonhar sozinho”.
Além de Felipe, vários estudantes do país falaram sobre suas histórias,
suas dificuldades, a presença ou não de sonhos e a importância da escola
em suas vidas. Não só estudantes, mas também professores, gestores e
estudiosos da educação e da vida adolescente foram ouvidos no documentário.
O filme apresenta um retrato do ensino médio brasileiro, as dificuldades encontradas por
jovens das classes menos abastadas do país em relação à aprendizagem, às
oportunidades para essa fase escolar e para o prosseguimentos na educação superior.
Jovens, profissionais e estudiosos da educação elencam diversos pontos de dificuldades,
tais como, a violência, a evasão, a necessidade de trabalhar concomitantemente à escola
para colaborar com a renda familiar, a falta de estrutura das escolas, a falta de relação entre
os conteúdos aprendidos na escola com a vida prática, dentre outras questões.
Como obra audiovisual Nunca me sonharam foi bem sucedido, pois é bem realizado, possui
uma fotografia moderna, dinâmica, que em parceria com a trilha sonora, emociona o
telespectador e mobiliza afetos. Sensibiliza para os diversos discursos de ausências
apresentadas na obra, ausências hora de perspectivas, afeto familiar, hora de políticas
públicas e amparo por parte dos sistemas de ensino.
Assisti ao filme algumas vezes, na faculdade, em reunião de professores e em reunião com
os alunos do grêmio escolar. Sempre terminei as sessões comovida com as histórias de
exclusão e com a valentia dos profissionais da educação envolvidos na obra. Porém é
necessário falar sobre outras questões presentes no filme, ou não tão evidentes.
Uma dessas questões é trazida na resenha realizada pela revista de Educomunicação
Viração, que a juventude é percebida quase sempre pelo que a sociedade entende como
negativo, como o tipo de música ouvida, os modos de se organizar para a diversão.
A escola e a sociedade tendem a enxergar o jovem como um vir a ser, negando o presente
como algo de valor, como vida acontecendo.
Outras questões, agora não tão subjetivas ou belas, são as levantadas pela resenha da
revista Carta Capital, que denuncia um trabalho orquestrado pelo Instituto Unibanco com o
intuito de justificar a reforma do ensino médio, já aprovada na Câmara dos Deputados e
apontando para uma possível solução dessa questão por meio da privatização da educação
de nível médio no país, haja vista que todas as cidades que aparecem no documentário,
principalmente em relação à medidas inovadoras, estão vinculadas ao projeto Jovem de
Futuro desenvolvido pelo Instituto Unibanco.
Todavia, independente de questões financeiras, o assunto do documentário é de grande
relevância e deve ganhar espaço nos debates entre professores, acadêmicos, gestores
públicos e também entre os alunos e alunas, os maiores interessados em terem sonhos e
em alcançá-los.
Assim, assistir ao documentário é essencial para fomentar o debate e despertar o senso
crítico de todos os envolvidos na educação básica. Mesmo que algumas pessoas possam
concordar ou discordar completamente das ideias veiculadas na obra, elas cumprem a
função de jogar luz sobre um assunto crucial na vida de milhares de jovens brasileiros.
p.s.: Texto escrito no 2º semestre de 2017 para o Portfólio do 3º semestre do Curso de Pedagogia Interdisciplinar da UNICeu - UAB - Centro Universitário São Camilo, mas penso que ainda bastante relevante.
Referências
BONFATTI, Paula. Documentário reflete sobre o Ensino Médio a partir da escuta de jovens
estudantes. Viração. 7 de junho de 2017. Disponível em:
http://viracao.org/documentario-reflete-sobre-o-ensino-medio-a-partir-da-escuta-de-meninos-e-meninas-estudantes/.
Acesso em 13 de novembro de 2017.

CÁSSIO, Fernando. Nunca me sonharam e o sequestro das histórias. Carta Capital.
6 de setembro de 2017. Disponível em:
http://www.cartaeducacao.com.br/artigo/nunca-me-sonharam-e-o-sequestro-das-historias/.
Acesso em: 05 de novembro de 2017.

NUNCA ME SONHARAM. Direção de Cacau Rhoden. Produção de Maria Farinha Filmes.
Apresentado por Instituto Unibanco, 2017. Disponível em:
http://www.videocamp.com/pt/movies/nuncamesonharam.
Acesso em: 02 de agosto de 2017.