sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Relato sobre a minha atuação como orientadora do Grêmio Estudantil

Relato sobre a minha atuação como orientadora do Grêmio Estudantil, de outubro de 2015 a setembro de 2019

Lado Leste - São Paulo


Em outubro de 2015 retornei à escola após um longo período de afastamento médico. Impossibilitada de lecionar, assumi uma função atribuída pela diretora da unidade, cuidar dos projetos da escola. Além dos projetos pontuais que a escola desenvolvia havia o Grêmio Estudantil que precisava de um professor orientador. Formalmente essa atribuição seria do Professor Mediador de Conflitos, porém a escola estava com sérios desfalques em sua equipe, para mais de 1 mil alunos havia apenas uma inspetora, dessa forma, o tempo do Professor Mediador era bastante preenchido pelos diversos conflitos do dia a dia escolar, sendo assim, resolvemos desenvolver o trabalho com o Grêmio em parceria.

Outubro de 2015 também marcou o início de uma grande insatisfação da sociedade e dos alunos, após o anúncio do Governador em reestruturar a rede de mais de 5000 escolas espalhadas pelo Estado de São Paulo. Na reestruturação havia a previsão de tornar cada escola para atendimento exclusivo ao Ensino Fundamental 1 Anos Inicias, Ensino Fundamental 2 Anos Finais ou Ensino Médio, dessa forma separando irmão mais velhos dos mais novos e, em muitos casos, aumentando a distância entre a escola e a casa dos estudantes. Esse fato causou grande reação entre os estudantes secundaristas, muitos grupos, alguns ligados aos Grêmios Estudantis, ocuparam as escolas e permaneceram nelas por longos períodos, a situação toda só se resolveu com a desistência do Governo Estadual em realizar a reestruturação.

É nesse clima que começo as minhas atividades numa escola em que não houve ocupação, não havia organização estudantil para isso, porém aconteceram discussões para a formulação de orientações para a eleição do Grêmio Estudantil do ano seguinte. Alguns estudantes do Ensino Médio estavam muito interessados no movimento de ocupação das escolas estaduais e queriam fortalecer a participação dos alunos como um todo.

No início de 2016 a Secretaria Estadual de Educação desenvolveu um cronograma organizando e institucionalizando o processo eleitoral, digo isso pois cada passo do processo, obrigatoriamente, deveria ser reportado à direção da escola e a Diretoria de Ensino. Nas orientações enviadas para a escola constavam as datas para cada passo do processo eleitoral e referências bibliográficas, produções do Instituto Sou da Paz, a cartilha Grêmio Estudantil é Hora de Participar e o Caderno Grêmio em Forma.

O primeiro passo do processo foi informar sobre a função da escola e sua importância para todos, que aconteceu por meio de visitas às turmas realizadas pela atual gestão do Grêmio acompanhados por mim. Seguido por convocação para assembleia geral, escolha dos representantes de sala, realização da assembleia com a escolha da comissão eleitoral, formulação e votação do estatuto do grêmio, abertura de inscrições para chapas, campanha eleitoral, votação, apuração e posse da diretoria registrada em ata.

Quando a comissão eleitoral foi escolhida discutimos as regras para a formação das chapas, algumas ideias já haviam sido apresentadas no final do ano anterior, sob influência do movimento de ocupação das escolas. Os alunos gremistas entendiam que as chapas precisavam representar cada grupo de estudantes da escola, dessa forma ficou combinado que as chapas precisariam ter um número equilibrado entre meninos e meninas e contar com estudantes dos três períodos letivos, manhã, tarde e noite, assim obrigatoriamente haveria em cada chapa estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental e estudantes do Ensino Médio, os dois ciclos atendidos pela unidade escolar.

A escola não possuia um local adequado para a realização da assembleia geral, dessa forma, resolvemos realizar primeiro a votação para escolha dos representantes de turma e posteriormente a assembleia dos representes. Essa decisão foi tomada em comum acordo com a gestão vigente do Grêmio, representantes de turma e grupo gestor da escola.

No material produzido pelo Instituto Sou da Paz há um modelo de Estatuto para o Grêmio, fizemos a leitura do estatuto na assembleia, na qual foram mantidos a maioria dos artigos. As alterações mais significativa aprovadas foram: a duração de 2 anos de mandato para a chapa eleita e a possibilidade de qualquer aluno matriculado na escola participar da admnistração do Grêmio, mesmo sem ter sido eleito, como colaborador. Após a assembleia o processo eleitoral aconteceu normalmente. Na posse da chapa vencedora as demais chapas foram convidadas a participar do Grêmio, mas infelizmente poucos alunos dessas chapas continuaram a participar.

Durante todo o tempo em que estive na nesta escola o Grêmio participou de reuniões de Conselho de Escola e das reuniões do MMR - Método de Melhoria de Resultados, projeto que a príncipio era experimental e em 2019 passou a vigorar em todas as escolas do Sistema Estadual de Ensino. Em 2016 o Grêmio participou do 1º Mini Seminário - Conhecer, Agir, Transformar organizado pelo Diretoria de Ensino em parceria com a Unifesp Campus Guarulhos. Nesse Mini Seminário os alunos apresentaram a palestra “Jovens Multiplicadores para a Prevenção ao uso de Drogas” em duas ocasiões, primeiro para um grupo de quatro escolas no Auditório de uma delas e depois para 20 escolas da Diretoria de Ensino no Auditório na Unicid. Durante o primeiro semestre do ano, uma vez por semana, a equipe do Grêmio se reunia para pesquisar, estudar e preparar a apresentação. Dessa preparação surgiu a ideia de continuar as reuniões semanais de formação, mas a partir de então com temas definidos pelos estudantes. Toda semana algum aluno se preparava para trazer informações sobre o assunto escolhido e compartilhar com os colegas, eu sempre preparava material de leitura e audiovisual para esses encontros que aconteciam 1 hora antes do horário de aula dos alunos, assim eles não perdiam as aulas regulares.

Nesses encontros semanais os alunos também planejavam suas ações, muitas delas em articulação com a gestão escolar ou com projetos de professores. Além disso, os integrantes do Grêmio produziam textos, desenhos e vídeos para serem compartilhados nas redes socias da escola (blog, Facebook, Youtube e o jornal eletrônico Jex) sobre temas relacionados aos encontros de formação, projetos da escola ou concursos.

Os estudantes do Grêmio participaram de vários concursos, por exemplo, Olimpíada da Língua Portuguesa, Concurso de Redação do Hospital do Amor de Barretos, Concurso Literário Faça Parte Dessa História FNDE, Concurso Minha Arte na Capa SEDUC, Concurso Cultural da Semana de Cultura de Paz - Instituto Ives Ota, Concurso Escritores pela Cultura de Paz e Concurso de Redação de Cartas - UPU União Postal Universal. Além dos concursos voltados à educação política: Parlamento Jovem Municipal, Parlamento Jovem Estadual e Jovem Senador.

No cotidiano da escola os alunos do Grêmio tinham uma responsabilidade diária, eles cuidavam da rádio escolar. A Rádio Jovem Legendário era uma pequena sala localizada no pátio, equipada com mesa de som, computador, e caixas de som espalhadas pelo pátio. Os alunos eram os responsáveis por tocarem músicas nos intervalos, os demais alunos da escola podiam solicitar suas músicas preferidas presencialmente ou fazendo comentários na página do Facebook do Grêmio. As regras em relação as músicas que poderiam tocar, volume, organização dos responsáveis e demais questões relacionadas à rádio também eram debatidas nas reuniões semanais de formação. Um detalhe sobre as nossas reuniões, elas sempre começam com a leitura de um poema, as vezes escolhido por mim, as vezes por algum dos alunos.

Uma vez por ano os alunos organizavam um programa de rádio com entrevistados e saraus temáticos (questões de gênero, consciência negra, escritores da periferia) para apresentarem no Festival do Livro e da Literatura de São Miguel Paulista, organizado pela Fundação Tide Setubal.

Contando tudo isso pode até parecer que as coisas aconteciam facilmente, ou que os alunos eram super engajados, participativos e disciplinados. Eles eram incríveis, criativos, afetuosos, mas frutos de um bairro extremamente carente e violento, essas ausências se manifestavam de diversas formas dentro da escola, muita indisciplina, pouca dedicação aos estudos e excesso de conflitos. Hoje alguns desses alunos já têm filhos, alguns estão na faculdade, alguns ainda estudam lá, alguns estão procurando um caminho, um deles está na Universidade Federal do ABC e um deles, tristemente, infelizmente, perdeu a vida na violência da cidade.


terça-feira, 2 de julho de 2019

A importância da família no processo de educar

A importância da família no processo de educar

No dai 13 de março de 2019, por um instante, todos ficamos sem ar, principalmente nós que dedicamos nossas vidas à educação das novas gerações. A Escola Estadual Raul Brasil perdeu 10 valorosas vidas nas mãos de jovens que se tornaram assassinos e suicidas.
Esse fato abalou profundamente a todos e fez com que algumas medidas fossem tomadas. Quatro meses depois ainda não vimos nenhuma mudança na organização do sistema de ensino no que diz respeito à segurança ou à saúde mental de estudantes, professores e funcionários.
No mesmo mês de março a Diretoria de Ensino Leste 1 promoveu uma palestra sobre "A importância da família no processo de educar" ministrada pela Professora Luciene Alves de Souza. Nossa escola foi convidada a participar e foi representada por mim, Professora Fabiana e pela Vice diretora Verônica. Lá encontramos a Professora Tânia, que já foi nossa vice diretora e agora é Mediadora de Conflitos em outra escola. Sei que já se passaram alguns meses, mas vale a pena deixar o registro dos principais pontos da palestra.

A importância da família no processo de educar - Resumo


  • As drogas eliminam o senso crítico. Muitas vezes o álcool é permitido dentro de casa.
  • Vulnerabilidade: Os adolescentes que abusam de drogas ficam vulneráveis à gravidez, DST (Doenças sexualmente transmissíveis), violência, abuso ou exploração sexual.
  • É possível se cuidas buscando os serviços de saúde, ex. UBS e CAPES.
  • Estratégias para diminuir as vulnerabilidades: entender e oportunizar momentos de prazer; conhecer o real perigo das drogas; evitar o discurso proibicionista/terrorista.
  • Motivos que podem levar ao uso de drogas: curiosidade; influência dos amigos; prazer; aliviar dores, angustias, problemas familiares e escolares.
  • Pedir ajuda é sinal de inteligência, não é vergonha.


Mitos sobre o suicídio: quem quer se matar não avisa, faz; falar sobre suicídio pode incentivar mais suicídios; quem pensa em suicídio já desistiu de viver.
Verdades sobre suicídio: pensar em suicídio é comum; o suicídio está vinculado a algum transtorno mental; o suicídio é prevenível; quem está por perto pode ajudar alguém que pensa em suicídio.

Dicas de projetos para trabalhar com a temática


  • Rodas de conversa: tomar cuidado para não julgar; incentivar a fala e a escuta.
  • Tutores da mediação: mediadores mirins, dois alunos por sala que fazem o papel de mediadores; são treinados pelos professores mediadores de conflito para notar as diferenças de comportamento; faltas; bullying; brigas; auto mutilação; comportamentos que podem gerar conflitos.


Quem pratica e sofre bullying tem problemas, é preciso investigar as causas. A prática causa extremo sofrimento e pode levar o adolescente ao suicídio ou a atitudes como os assassinatos em massa. É sempre necessário prestar atenção às mudanças de comportamento.

Nós, da E.E. Reverendo Urbano de Oliveira Pinto temos a esperança de que essa situação será resolvida ou amenizada, nossos jovens têm o direito de terem uma vida melhor, protegidos, gozando de plenos direitos e tornando-se cidadãos críticos e ativos na sociedade.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Educação Inclusiva: Desafios e oportunidades

Educação Inclusiva: Desafios e oportunidades
Evento realizado no Espaço Civi-co em 19 de fevereiro de 2019

Organização: Associação Nova Escola, Instituto Rodrigo Mendes e Fundação Volkswagen.


Fomos convidados pela Revista Nova Escola para participar do evento Educação Inclusiva: Desafios e
Oportunidades. Importante tema a ser debatido e estudado por educadores, sociedade civil e órgãos
governamentais, pois segundo a Constituição Federal de 1988 a educação é direito de todos os
brasileiros e brasileiras.
O evento foi organizado em duas mesas de debates, a primeira denominada “A realidade de quem
está em sala de aula” e a segunda “Os avanços na educação inclusiva”.
Na primeira mesa “ A realidade de quem está em sala de aula” foram ouvidos: Mônica Rocha, ex-aluna
do Cieja, lutadora de Tae Kouon Do e poeta; Eda Luz, ex-diretora do Cieja Campo Limpo; Paulo Cesar,
professor da Emef Paulo Nogueira Filho e Maria da Paz Castro, especialista em educação inclusiva.
A Mônica tem síndrome de Down e contou sobre a sua experiência como aluna, da dificuldade que
tinha na escola, inclusive em se relacionar, contou que se sentiu incluída quando teve a atenção dos
professores, quando foi ouvida. O esporte a ajudou muito, tanto em seu desenvolvimento motor,
quanto no relacionamento com as outras pessoas.
Para Eda Luz uma das coisas mais importantes para o sucesso da educação inclusiva é a escuta ativa,
ela sugeriu a organização das aulas em semi círculo, possibilitando que os estudantes se olhem,
possam ser ouvidos, que tenham voz inclusive na preparação das aulas com a sugestão de temas
de estudo. Nenhuma escola ou professor está preparado para tudo, mas é preciso estar aberto para
aprender, para olhar as situações e agir. Um dos caminhos é o aprendizado coletivo entre educadores
dentro da escola. Ela é, sem dúvida, uma entusiasta da educação!
O professor Paulo Cesar contou sobre a sua experiência com educação inclusiva na Emef em que
trabalha, mas, acima de tudo, ele afirma que quando tratamos o outro da forma que gostaríamos de
ser tratados as relações tendem a ser favoráveis e enriquecedoras. Os alunos não são apenas de um
ou outro professor, eles são alunos da escola, são alunos de todos os professores, a escola precisa ser
um coletivo.
A especialista em educação inclusiva, Maria da Paz, traz algumas reflexões práticas sobre o ensino
inclusivo, ela enfatiza a importância de ouvir, de olhar para a criança em sua individualidade, sem a
infantilizar, independente do CID (Código Internacional de Doenças). É importante observar antes de
propor as atividades, pois o indivíduo sabe bastante sobre ele mesmo. Para Maria da Paz, o professor
precisa aceitar que vai errar e que a partir do erro pode aprender muito mais.
Na segunda mesa “Os avanços na Educação Inclusiva” ouvimos a Eliane, Secretária de Educação de
Amparo; a Carla, da Fundação Volkswagen e o Luiz Conceição do Instituto Rodrigo Mendes.
A Eliane contou sobre sua experiência na prefeitura de Amparo, disse que é função da educação
especial tornar acessível o que está inacessível, para isso o professor precisa observar seu aluno e
ouvi-lo. Enfatiza que o horário coletivo de formação dos professores, no qual aprendem e trocam
experiências com seus pares, ajuda a lidar com as diferenças existentes na escola.
A Carla, da Fundação Volkswagen, afirma que hoje o heterogêneo é a normal e que a escola é o
espaço público que permite o privilégio de permanecer aprendendo. Nos conta também que a
Fundação Volkswagem em parceria com o Instituto Rodrigo Mendes e a Associação Nova Escola
publicaram os Cadernos do Brincar, são dois volumes que focam nas brincadeira na educação infantil.
O volume 1 tem o subtítulo
Propostas de reflexão sobre brincadeiras e práticas inclusivas para professores da Educação Infantil
e o volume 2 “Propostas práticas para brincadeiras inclusivas na Educação Infantil”, ambas as
publicações estão disponíveis para download.
O Luiz Conceição, do Instituto Rodrigo Mendes, fala que a educação tem que ser para todos e para
cada um, fala da importância de se eliminar as barreiras e pensar em modos diferentes de ensinar,
pensar nas múltiplas inteligências, e que isso pode acontecer desde o planejamento docente. Ele cita
um possível caminho para essa eliminação de barreiras, o desenho universal para a aprendizagem,
que se trata de um modelo prático que visa ampliar as oportunidades de desenvolvimento de cada
estudante por meio de planejamento pedagógico contínuo, somado ao uso de mídias digitais.
Para ele, a perspectiva inclusiva é responsável por possibilitar que a aprendizagem aconteça nos mais
diversos cenários. As soluções são individuais, são condutas locais, cada escola vai encontrar seu
melhor caminho. O ensino é coletivo, mas a aprendizagem é individual, cada um tem seu tempo e
modo de aprender. A família dos estudantes podem ser a barreira e/ou o facilitador do processo de
aprendizagem, depende muito de como será feito o diálogo entre ela e a escola.
O Instituto Rodrigo Mendes disponibiliza alguns materiais no site: https://diversa.org.br/.
A Associação Nova Escola lançou no mês de fevereiro uma edição especial sobre inclusão, na qual
dialoga com as pessoas que participaram das duas meses deste encontro e também com uma
publicação anterior da revista de quase 10 anos. Vale a pena conferir.
Você encontra muito conteúdo também no site da revista Nova Escola: https://novaescola.org.br/#.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Nunca me sonharam - Resenha


Nunca me sonharam - Resenha

O documentário Nunca me Sonharam foi lançado em junho de 2017,
dirigido Cacau Rhoden, produzido por Maria Farinha Filmes e
apresentado pelo Instituto Unibanco, apresenta histórias da vida escolar
de diversos jovens brasileiros de oito estados e de todas as regiões do país.
O título do documentário foi retirado da fala de um dos estudantes
entrevistados, Felipe Lima, de Nova Olinda (CE), ele diz: “Eles nunca
me sonharam sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo um professor,
nunca me sonharam sendo um médico, não me sonharam. Eles não
sonhavam e nunca me ensinaram a sonhar. Tô aprendendo a sonhar sozinho”.
Além de Felipe, vários estudantes do país falaram sobre suas histórias,
suas dificuldades, a presença ou não de sonhos e a importância da escola
em suas vidas. Não só estudantes, mas também professores, gestores e
estudiosos da educação e da vida adolescente foram ouvidos no documentário.
O filme apresenta um retrato do ensino médio brasileiro, as dificuldades encontradas por
jovens das classes menos abastadas do país em relação à aprendizagem, às
oportunidades para essa fase escolar e para o prosseguimentos na educação superior.
Jovens, profissionais e estudiosos da educação elencam diversos pontos de dificuldades,
tais como, a violência, a evasão, a necessidade de trabalhar concomitantemente à escola
para colaborar com a renda familiar, a falta de estrutura das escolas, a falta de relação entre
os conteúdos aprendidos na escola com a vida prática, dentre outras questões.
Como obra audiovisual Nunca me sonharam foi bem sucedido, pois é bem realizado, possui
uma fotografia moderna, dinâmica, que em parceria com a trilha sonora, emociona o
telespectador e mobiliza afetos. Sensibiliza para os diversos discursos de ausências
apresentadas na obra, ausências hora de perspectivas, afeto familiar, hora de políticas
públicas e amparo por parte dos sistemas de ensino.
Assisti ao filme algumas vezes, na faculdade, em reunião de professores e em reunião com
os alunos do grêmio escolar. Sempre terminei as sessões comovida com as histórias de
exclusão e com a valentia dos profissionais da educação envolvidos na obra. Porém é
necessário falar sobre outras questões presentes no filme, ou não tão evidentes.
Uma dessas questões é trazida na resenha realizada pela revista de Educomunicação
Viração, que a juventude é percebida quase sempre pelo que a sociedade entende como
negativo, como o tipo de música ouvida, os modos de se organizar para a diversão.
A escola e a sociedade tendem a enxergar o jovem como um vir a ser, negando o presente
como algo de valor, como vida acontecendo.
Outras questões, agora não tão subjetivas ou belas, são as levantadas pela resenha da
revista Carta Capital, que denuncia um trabalho orquestrado pelo Instituto Unibanco com o
intuito de justificar a reforma do ensino médio, já aprovada na Câmara dos Deputados e
apontando para uma possível solução dessa questão por meio da privatização da educação
de nível médio no país, haja vista que todas as cidades que aparecem no documentário,
principalmente em relação à medidas inovadoras, estão vinculadas ao projeto Jovem de
Futuro desenvolvido pelo Instituto Unibanco.
Todavia, independente de questões financeiras, o assunto do documentário é de grande
relevância e deve ganhar espaço nos debates entre professores, acadêmicos, gestores
públicos e também entre os alunos e alunas, os maiores interessados em terem sonhos e
em alcançá-los.
Assim, assistir ao documentário é essencial para fomentar o debate e despertar o senso
crítico de todos os envolvidos na educação básica. Mesmo que algumas pessoas possam
concordar ou discordar completamente das ideias veiculadas na obra, elas cumprem a
função de jogar luz sobre um assunto crucial na vida de milhares de jovens brasileiros.
p.s.: Texto escrito no 2º semestre de 2017 para o Portfólio do 3º semestre do Curso de Pedagogia Interdisciplinar da UNICeu - UAB - Centro Universitário São Camilo, mas penso que ainda bastante relevante.
Referências
BONFATTI, Paula. Documentário reflete sobre o Ensino Médio a partir da escuta de jovens
estudantes. Viração. 7 de junho de 2017. Disponível em:
http://viracao.org/documentario-reflete-sobre-o-ensino-medio-a-partir-da-escuta-de-meninos-e-meninas-estudantes/.
Acesso em 13 de novembro de 2017.

CÁSSIO, Fernando. Nunca me sonharam e o sequestro das histórias. Carta Capital.
6 de setembro de 2017. Disponível em:
http://www.cartaeducacao.com.br/artigo/nunca-me-sonharam-e-o-sequestro-das-historias/.
Acesso em: 05 de novembro de 2017.

NUNCA ME SONHARAM. Direção de Cacau Rhoden. Produção de Maria Farinha Filmes.
Apresentado por Instituto Unibanco, 2017. Disponível em:
http://www.videocamp.com/pt/movies/nuncamesonharam.
Acesso em: 02 de agosto de 2017.




domingo, 7 de abril de 2019

Dia 15 de outubro, diagnóstico, percurso, vida

Dia 15 de outubro, diagnóstico, percurso, vida


- É necessário fazer biópsia. Agende o mais rápido possível.
- Ok.
Vamos lá, vamos fazer. Agulha, ultra som, teto branco, não pode engolir, mas a vontade
é absurda, cutuca o pescoço, dói um pouco, só um pouco e já era. O pescoço fica
estranho, dolorido, mas bora pegar o ônibus e encarar mais um dia de trabalho, porque
não tem atestado, é só o comprovante de horas.
O resultado vem impresso em uma folha branca, dobrada em três partes e grampeada.
Ah tá! Que eu não vou abrir. Era dia 15 de outubro, dia dos professores, naquela tarde
saindo na Rua Borges Lagoa, joguei o grampo longe, não, não joguei, não jogo lixo no
chão, mas deu vontade. Tirei o grampo delicadamente, desdobrei o papel e li, lá no final
da folha a palavra temida, carcinoma alguma coisa. A visão turvou, um imenso buraco
se abriu no chão a minha frente e eu senti o corpo caindo, caindo, sem parar. Não havia
mais barulho de carros ou pessoas, apenas o silêncio, olhar turvo e a sensação de
queda.
Uma buzina me tirou do transe, eu sabia que o resultado era ruim, que viria muita coisa
difícil pela frente, sabe-se lá quanta coisa, quanta agulha, quantos remédios. Respirei
fundo, de novo e de novo, o buraco foi se fechando e a visão clareando. É eu tenho
câncer.
Consultas, exames, consultas, exames, exames e cirurgia para março, achei a data
ótima tinha que terminar de ler alguns livros e artigos e escrever o TCC da
especialização em educação inclusiva. Com toda essa loucura de diagnóstico e
agendamento de cirurgia eu tinha conseguido fazer as entrevistas da pesquisa de campo,
só faltava analisar os dados, bobagem! Quase nada pra fazer! E escrever a
fundamentação teórica, parte mais simples do artigo! Meu plano era perfeito, aproveitar
as férias forçadas da sala de aula para estudar e escrever. Agora, uma coisa são os
meus planos, outra bem diferente são os planos do universo. Universo filha da puta!
Explico: a cirurgia foi cancelada, uma anestesista cismou que eu tinha apneia e cancelou
a cirurgia. O futuro mostrou que ela tinha razão e talvez o universo tenha conspirado para
que eu continuasse viva, agradeço profundamente por isso, porém na questão
acadêmica eu estava ferrada. Teria que dar conta de tudo, terminar de ler e escrever o
artigo, trabalhar em duas escolas, aplicar provas, fechar notas de bimestre, enlouquecer!
Sei lá como consegui fazer tudo o que precisa e no final de abril estava novamente no
hospital para ser internada e fazer a cirurgia. Parece mais uma degola mesmo, mas deu
tudo certo. Sai câncer e entra uma cicatriz de 15 centímetros no pescoço, remédios
diários e um bônus, paralisia da corda vocal, ou prega vocal em mediquês. Uma amiga
muito querida começou a me chamar de Darth Vader, a gente tem mesmo que rir dessas
coisas. Eu achava parecido com a voz do pato Donald, mas o que eu sentia era que
a Bruxa do Mar tinha roubado a minha voz, assim como fez com a Ariel.
Mais médicos, fonoaudióloga, ela era uma fofa, fiquei boa sabe, na verdade quase, depois
de um ano, se a paralisia não se reverter com a ajuda dos exercícios não tem mais jeito,
passa a ser permanente.
Professora sem voz? Pode isso, Arnaldo?
Pois é, não pode. Seis meses em casa, ficando louca, assistindo a todas as séries e
filmes na Netflix e participando de atividades no Ponto de Cultura, no Cordão Folclórico
de Itaquera Sucatas Ambulantes, construindo sonhos com arame, papel e cola voltei
para a escola e lá tive que me reinventar. A professora que não pode falar. Mas rolou.
Fui pirar em projetos, pensar em livros e em não deixar morrer a vontade de estar junto
à molecada, contribuindo com o aprendizado deles e me realizando, porque pra mim é
muito louco ser professora, eu tinha que continuar fazendo isso, tinha que achar um
caminho.
Acho que rolou, são quase quatro anos inventando coisas pra fazer, curtindo os desafios,
lidando com dificuldades e nesse tempo a voz até voltou, meio mais ou menos é
verdade, mas capaz de continuar dia após dia, diagnóstico difícil após diagnóstico difícil.
É, porque já são 4 anos de tratamento, duas cirurgias, radioiodoterapia, ressonâncias
magnéticas, tomografias, cintilografia, exames de sangue, nossa inúmeros, e vou
seguindo.
Consegui terminar aquele TCC de educação inclusiva, já escrevi outro para a
especialização em mídias na educação e agora já estou pensando no TCC da pedagogia,
essa vai ser em grupo, desafiador, pois eu sou um ser solitário, gosto da minha
companhia, mas não me furto de andar com gente espetacular. Ah! Porque meus amigos
e familiares, que estão sempre ao meu lado, são espetaculares, são incríveis, seguram
a minha mão quando eu preciso e riem comigo das coisas mais bestas.
O câncer foi de tireoide, hoje ele ainda mora nos meus pulmões, não por minha vontade, mas ele
é um hóspede insistente. Vamos seguindo juntos por aí, procurando novas aventuras, livros,
praias, músicas, afetos. Procurando manter a cabeça erguida e os olhos no horizonte.
A vida é boa!

domingo, 24 de setembro de 2017

A LEI 10.639/03 - NECESSIDADE, IMPORTÂNCIA E APLICAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL E ENSINO FUNDAMENTAL I


A LEI 10.639/03 - NECESSIDADE, IMPORTÂNCIA E APLICAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL E ENSINO FUNDAMENTAL I


Nota: Este artigo foi escrito como trabalho de conclusão de curso em 2013 para a graduação em pedagogia (a qual não conclui, mas fui aprovada na disciplina de TCC! Só rindo de mim mesma!!).
Em 23/09/2017 este trabalho foi apresentado como banner digital no "Seminário de reflexões educativas: currículo e infância - Ampliando o debate e aprofundando as práticas" organizado pelas unidades Lajeado e Jambeiro da UniCeu com a DRE Guainases.

Resumo: Este artigo aponta alguns caminhos para a efetiva aplicação da lei 10.639/03 na Educação Infantil e Ensino Fundamental I a partir do conhecimento do professor e da professora dos aspectos históricos da população negra no Brasil desde o século XVI, das desigualdades sociais históricas que motivaram a criação da lei, do importante papel a ser desempenhado por esses profissionais para a mudança do paradigma social brasileiro e da possibilidade de alcançar esses objetivos a partir do ensino de literatura afro-brasileira.
Palavras-Chaves: literatura afro-brasileira. educação infantil. formação de professores. diferenças étnicas.

Introdução

Este artigo tem como objeto de estudo a lei 10.639/03 sua efetiva necessidade para a sociedade brasileira, a importância de sua existência e cumprimento e o papel da escola e das professoras e professores em sua aplicação. O interesse por esse assunto surgiu há alguns anos com o início dos debates em ambiente acadêmico sobre como essa lei poderia ser cumprida, de que forma deveria ocorrer a formação de educadores para esse fim e como fazer com que esse conhecimento chegue às escolas.
Realizar o estudo da referida lei pautando-se por referências históricas visa legitimar a necessidade de sua existência, visto que mesmo após dez anos de sua entrada em vigor alguns setores da educação ainda são resistentes ou ignoram sua pertinência. Acreditar que os seres humanos podem ser diferentes, mas que essas diferenças não podem causar situações de discriminações e exclusões é a razão para a escolha desse assunto.
Para tanto será utilizado o método de pesquisa bibliográfica unindo ou confrontando discursos sobre essa temática de importante relevância histórica, política e pedagógica. Fundamental a formação do ser humano, sobretudo na primeira infância.
O trabalho compreende quatro partes, na primeira “Aspectos históricos” é brevemente abordada a configuração brasileira desde a chegada dos portugueses até a abolição da escravatura e os movimentos de resistência realizados pelos escravizados. Na segunda, “A necessidade de ações afirmativas, tais como a lei 10639/03” são abordadas as situações de racismo no cotidiano brasileiro, fato que justifica a criação da referida lei e sua necessidade para as relações sociais brasileiras a partir da escola. Na terceira “O importante papel do professor na desconstrução/transformação dos processos de preconceito e discriminação” é abordada a dinâmica da prática educativa na escola desde a educação infantil ao ensino fundamental I. Na quarta “O ensino da cultura afro-brasileira nas aulas de língua portuguesa/literatura para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I” é abordada a utilização da literatura como importante instrumento na construção de valores positivos para a criança afrodescendente.
1 – Aspectos históricos

Os portugueses, após chegarem ao território que posteriormente seria chamado de Brasil, precisavam de ajuda para a exploração, a princípio, dos recursos naturais que se apresentavam em abundância, no caso o pau brasil e posteriormente com as culturas da cana de açúcar, do café e também nas minas de ouro. No início contaram com a colaboração do povo originário da terra, que fora erroneamente denominado de indígena em alusão a Índia. Essa ajuda não teve longa duração, pois os povos do Brasil não conheciam relações hierárquicas, não se submetiam pacificamente aos comandos dos portugueses, tinham costumes considerados desconfortáveis àqueles visitantes (a antropofagia, por exemplo), morriam das doenças trazidas pelos portugueses, às quais não possuíam defesas e, além disso, a Igreja Católica desaprovava essa exploração, pois visava à cristianização dessas populações, tarefa desempenhada pelos jesuítas.
Ainda na primeira metade do século XVI os portugueses iniciaram o tráfico de africanos para o trabalho escravo, essa prática foi extremamente rentável à coroa portuguesa, tanto o tráfico em si com a comercialização de africanos, como com o trabalho escravo a que essas pessoas foram submetidas em terras brasileiras.
É importante ressaltar que a escravização de africanos não foi aceita com docilidade por essas pessoas, durante todo o tempo em que houve escravização de africanos no Brasil os movimentos de resistência também atuaram. Alguns a partir de ações individuais ou com pouca visibilidade, tais como a preservação de manifestações religiosas, alguns hábitos culinários, a capoeira, a prática do suicídio e do aborto, outros mais organizados, tais como o conflito direto, as fugas e a formação de quilombos.
O fim dessa situação, inaceitável, de escravização de seres humanos se deu  com a assinatura da Lei Áurea em 1888, porém apenas foi decretada a abolição da escravidão sem nenhuma ação para a inclusão dessas pessoas na vida social, no mundo do trabalho. Elas foram libertas e deixadas à própria sorte. Seguiu-se a essa lei a política do branqueamento, em que se incentivou a imigração de povos europeus para o trabalho nas lavouras e nas cidades brasileiras. Assim, a população negra foi sendo apartada da sociedade, agora não mais nas senzalas, mas por meio do estigma da escravização e da pobreza.
Em 1933 Gilberto Freyre publicou o livro Casa Grande e Senzala em que afirma ser o processo de escravização à brasileira menos cruel que o modelo norte americano, que as relações interétnicas aqui se deram de modo mais terno, mais brando e acaba criando o mito da democracia racial. Mito esse que por anos desautorizou o conhecimento, o estudo aprofundado e o enfrentamento aos problemas étnicos brasileiros. Somente a partir de estudos desenvolvidos por sociólogos, destacando-se Florestan Fernandes com a publicação: A integração do negro na sociedade de classes, de 1964, esse mito começa a ser desconstruído e outros estudos acerca do espaço e do papel do negro na sociedade brasileira começam a ser desenvolvidos. Mesmo com esse cenário é preciso destacar que essa população não ficou apenas esperando uma solução vinda de fora, uma iniciativa de outrem, sempre houve um movimento de resistência e conscientização em relação a ocupar seu espaço na sociedade, como por exemplo, a chamada imprensa negra, termo utilizado no meio acadêmico para nomear as revistas e jornais publicados, majoritariamente em São Paulo, desde o final do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Essas publicações, realizadas e direcionadas à população negra, funcionavam como instrumentos de integração, combatiam o preconceito, divulgavam eventos, festas e concursos voltados ao povo negro e que eram ignorados pela “grande imprensa”, essas ações já buscavam a afirmação social da população negra.


2 – A necessidade de ações afirmativas, tais como a lei 10.639/03

Uma configuração social como a brasileira não se altera naturalmente, sem nenhum tipo de intervenção, o que ocorre dessa maneira é apenas a perpetuação do status quo, em que a menor parcela da população detém o poder político e financeiro e a maior parcela da população permanece submetida às vontades da minoria, passando por toda sorte de situações de exclusão, privações de direitos e a quase impossibilidade de ascensão social.
A lei 10.639/03 possibilita uma tomada de consciência, conhecimento histórico das populações negras em África e em território brasileiro e busca a extinção do preconceito racial.
O parecer do Conselho Nacional de Educação de 2004 afirma

A demanda por reparações visa a que o Estado e a sociedade tomem medidas para ressarcir os descendentes de africanos negros, dos danos psicológicos, materiais, sociais, políticos e educacionais sofridos sob o regime escravagista, bem como em virtude das políticas explícitas ou tácitas de branqueamento da população, de manutenção de privilégios exclusivos para grupos com poder de governar e de influir na formulação de políticas, no pós-abolição. Visa também a que tais medidas se concretizem em iniciativas de combate ao racismo e a toda sorte de discriminações. (CNE/CP 003/2004, p.3).


A referida lei estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas. Reconhecer em forma de lei a necessidade do ensino desses conteúdos significa também reconhecer e legitimar a luta por igualdade de direitos sociais, econômicos, civis e culturais da população negra brasileira. Para que esta lei seja efetivamente cumprida é necessário mudar os discursos, pensamentos e a lógica de se acreditar no mito da democracia racial brasileira, pois o reconhecimento da necessidade de uma lei como esta demonstra o imenso abismo existente nessa sociedade.
Esse reconhecimento precisa vir acompanhado de mudanças de paradigmas já consolidados na sociedade brasileira e que lentamente vêm sendo alterados, em grande parte por força da lei 10.639/03, mas também de um conjunto ações afirmativas que incluem a lei de cotas para as universidades públicas brasileiras. Mudar esses paradigmas também implica adotar estratégias de valorização da diversidade, superação da desigualdade étnico-racial, extinção de estereótipos depreciativos, extinção de sentimentos de superioridade racial, divulgação e respeito à história da resistência do povo negro enquanto escravizado, fornecimento de materiais adequados com esses conteúdos e formação de qualidade aos professores, para que possam ser instrumento dessa mudança dentro do ambiente escolar.
O parecer do Conselho Nacional de Educação ainda afirma

Políticas de reparações e de reconhecimento formarão programas de ações afirmativas, isto é, conjuntos de ações políticas dirigidas à correção de desigualdades raciais e sociais, orientadas para oferta de tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvantagens e marginalização criadas e mantidas por estrutura social excludente e discriminatória. Ações afirmativas atendem ao determinado pelo Programa Nacional de Direitos Humanos (Ministério da Justiça. Programa Nacional de Direitos Humanos. Brasília, 1996), bem como a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, com o objetivo de combate ao racismo e a discriminação, tais como: a Convenção da UNESCO de 1960, direcionada ao combate ao racismo em todas as formas de ensino, bem como a Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Discriminações Correlatas de 2001. (CNE/CP 003/2004, p.4).

Portanto, a criação da lei 10.639/03 vem de encontro a reivindicações do movimento negro organizado no Brasil a partir de demandas efetivas da sociedade e também de orientações internacionais nesse sentido, tomar essas medidas significa cumprir o artigo 3º da Constituição Federal “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.” Contribuindo assim com a plena formação da identidade de cada cidadão brasileiro.

3 – O importante papel do professor na desconstrução/transformação dos processos de preconceito e discriminação

Na atual configuração social brasileira, muitas crianças estão sendo enviadas à escola já para a educação infantil, sendo educadas desde muito cedo longe de suas famílias e dentro de uma estrutura formal e impessoal.
Crianças muito pequenas, bebês de meses até os três anos de idade, precisam de muito suporte físico e emocional, incluindo-se os cuidados básicos com a higiene, alimentação, afeto e proteção. Cuidados estes, anteriormente, de modo geral, oferecidos pela família. Com a atual institucionalização dessas crianças esses cuidados primordiais têm de ser oferecidos por profissionais sem vínculo afetivo com elas. O vínculo entre um bebê e sua mãe é a base para o pleno desenvolvimento da criança e para seus relacionamentos futuros. Se esse vínculo materno é, em parte, substituído pelo vinculo com o profissional de educação é necessário pensar na qualidade desse vínculo. Uma criança pequena é totalmente dependente de cuidados com seu corpo e higiene, esse momento de higiene não pode ser apenas mecânico como o cumprimento de uma função, o profissional estará com o corpo dessa criança nas mãos, todas as suas atitudes, expressões faciais, modo de falar, são sentidos por essa criança. Se o profissional que cuida de uma criança negra tem sentimentos racistas, esses, de alguma forma, serão sentidos pela criança, devido à intimidade da situação. Um breve exemplo como esse indica a grande responsabilidade de educadores perante a diversidade étnica presente na escola.
Negar a diferença não é o caminho, pois qualquer criança pequena pode olhar as pessoas que a cercam e notar as diferenças, umas pessoas são brancas, outras negras, outras têm os olhos claros ou orientais, outras têm cabelos claros ou ruivos, crespos ou lisos, enfim, as diferenças são inúmeras, porém as diferenças são apenas isso, diferenças. Segundo Santos “percebe-se que diferenciar não só é algo natural, como também é essencial para a construção da nossa identidade” e ainda que “diferenciar é uma forma de apropriação do mundo, de conhecimento, de construção de si mesmo.” (SANTOS, 2009, p. 14). Portanto diferenciar é parte importante para a construção da própria identidade e tão importante quanto a construção de uma identidade própria é aprender a lidar com a diferença, a se relacionar com o outro. O problema ocorre quando as diferenças são hierarquizadas, de modo a colocar uma como sendo melhor que a outra, quando isso ocorre se presencia a discriminação que vem seguida da intolerância e segregação. Rotular as pessoas devido à suas características físicas sempre gera conflito e sofrimento. Quando uma criança pequena é atingida por essa discriminação ela acaba sofrendo um processo de destruição de sua autoestima. Se essa exposição é sistemática pode gerar sentimentos de inferioridade, de não reconhecimento de si como membro de determinado grupo ou etnia e até de negação de si e de suas origens.
De que forma o professor ou a professora podem se posicionar dentro desse cenário sabendo-se que a escola é o espaço social privilegiado para lidar com as diferenças na infância? É impossível não levar em consideração as limitações desse profissional, sua extensa jornada de trabalho, baixos salários, condições precárias de contratação, lacunas na formação acadêmica, falta de recursos materiais nas escolas, enfim, as dificuldades desses profissionais são inúmeras, isso não deixa dúvidas, porém, nesse momento é necessário tratar apenas do caso específico de como esse profissional é importante para a efetivação da lei 10.639/03 e também para as relações afetivas e na construção da identidade das crianças.
Primeiro é importante frisar que uma pessoa não pode ensinar o que não sabe ou aquilo que despreza. A formação de professores deve enfatizar a importante atuação desse profissional em relação à formação da personalidade de seus alunos, em relação a como reconhecer as diferenças sem hierarquizá-las, em relação ao conhecimento dos povos do Brasil, “mais informações a respeito da história do negro brasileiro, para além do viés da escravidão” (MARTINS, p.34), em relação à percepção do racismo nas atitudes do cotidiano, além das disciplinas tradicionais da formação de professores e da disciplina que será ministrada por esse profissional.

O papel do professor é fundamental tanto para impedir que o processo de diferenciação se torne um processo de discriminação e segregação no espaço da escola quanto para oferecer novos modelos e valores com os quais crianças negras e brancas possam se identificar e que promovam, entre elas, a aproximação em vez do estranhamento.
Para a formação de crianças negras felizes com o que são, crianças que aprendam a gostar delas mesmas, é necessário o reconhecimento sociocultural do negro e dos valores de origem africana como sinônimos de positividade. Esses valores, presentes nos espaços de formação das crianças, poderão ser incorporados por elas, aceitos e vivenciados sem conflitos. Ao professor cabe também oferecer elementos positivos com as quais as crianças negras possam se identificar. (SANTOS, p.44 e 45)

É importante também salientar que as situações de racismo no Brasil são cotidianas e de difícil percepção, pois devido ao mito da democracia racial dificilmente as pessoas se percebem como racistas ou percebem que suas atitudes são racistas, dessa forma, se faz necessário que professores e professoras saiam “do senso comum para poder enxergar com mais perspicácia a realidade na qual estão inseridos.” (MARTINS, p.16).

4 – O ensino da cultura afro-brasileira nas aulas de língua portuguesa/literatura para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I

Para que se cumpra o texto da referida lei faz-se necessário que a criança, desde muito cedo, aprenda a lidar com a diversidade cultural e étnica a qual está inserida. Dessa forma, é possível já na educação infantil, que os profissionais da educação atentem para essa necessidade e desenvolvam seu trabalho no intuito de atendê-la.
É importante à criança se ver, se encontrar, se reconhecer nos textos literários a ela oferecidos, sendo essa uma das razões pelas quais os clássicos da literatura infantil estarem presentes na escola, mas a quase totalidade dos textos conta histórias de crianças brancas, em suas ilustrações também são retratadas estas crianças e a visão de mundo, a lógica do pensamento é sempre eurocêntrica, ocidental. Quase apagando a existência de crianças negras ou de outras etnias. Para que a criança negra construa uma imagem positiva de si é fundamental que ela tenha contato com textos que a retratem, que dialoguem com sua realidade e que também dialoguem, retratem as características e a “cosmovisão do africano, sua concepção do universo, da vida e da sociedade.” (AMÂNCIO, 2008, p.43) Infelizmente, mesmo hoje, dez anos depois da entrada em vigor da lei 10.639/03 a oferta dessas publicações ainda deixa a desejar. Ratificando esta ideia o escritor Ferréz, em sua passagem pela literatura infantil, com o livro Amanhecer Esmeralda, no prólogo, afirma que “alguém (uma criança) que quer olhar no espelho e ver um rosto e por trás do rosto ver uma história não de escravidão, mas acima de tudo ver uma grande cultura, uma história de honra e glória”. (FERRÉZ, 2005, p.5)
A presença da literatura infantil na escola há muito tempo é uma realidade e ela tem a função de estimular o imaginário das crianças, fornecer-lhes material importante para a construção de valores e também para a fruição, pois a criança é considerada “um ser educável: o ser humano é (ou deve ser) um aprendiz de cultura, enquanto dura o seu ciclo vital.” (COELHO, 2008, p. 17). A escola é o lugar privilegiado da formação, da transformação e a literatura infantil é parte importante desse processo, pois “a verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da mente, ao nível da consciência de mundo que cada um vai assimilando desde a infância... o caminho especial para se chegar a esse nível é a palavra. Ou melhor, é a literatura...” (COELHO, 2008, p. 15)
Encarar a literatura como um prazer desde a mais tenra idade só tem a contribuir para a sua tarefa de agente de formação, seja de repertório, de valores, de afetos e também precisa possibilitar a todas as crianças um reconhecimento positivo de si e de sua realidade.
No ensaio “O direito à literatura”, Antonio Candido, compara o direito à literatura a um direito humano, portanto comum a todos os seres desta espécie, sendo um direito humano, precisa ser universal, pois todas as pessoas são contempladas por ele, sendo assim como uma criança pode ser privada de se ver nesse universo? O autor ainda faz reflexões acerca da função da literatura

A função da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, que explica inclusive o papel contraditório mas humanizador (talvez humanizador porque contraditório). Analisando-a podemos distinguir pelo menos três faces: ela é uma construção de objetos autônomos com estrutura e significado; ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos; ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente. (CANDIDO, 2004, p. 176)

Candido atribui o efeito da literatura no leitor devido à atuação simultânea desses três aspectos, das três faces descritas por ele. A força das palavras organizadas pelo escritor atua poderosamente no imaginário do leitor que a partir do que lê (ou ouve) constrói seu imaginário próprio, se expõe a visão de mundo ali partilhada, aprende e incorpora valores. Se a criança não tem acesso a uma literatura que a retrate ela terá dificuldades em formar valores positivos ligados a sua vida. O autor finaliza seu ensaio enfatizando a importância da fruição da literatura e afirmando que “uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável.” Por esse motivo mostra-se tão importante o contato sistemático da criança com a literatura universal, mas também, e principalmente, com a literatura em que ela se reconheça, no caso, a literatura afro-brasileira e africana.
Nelly Novaes Coelho defende que há uma mudança de paradigma na literatura infantil que contrapõe um modelo tradicional a um novo modelo, neste novo modelo valores como o espírito solidário, o questionamento da autoridade, a moral de responsabilidade ética, a criança entendida como ser em formação e o mais relevante para este estudo, uma atitude antirracista.

Luta para combater os ódios raciais tão fundamente enraizados em nosso mundo. Valorização das diferentes culturas, que correspondem às diferentes etnias, na busca de descobrir e preservar a autenticidade de cada uma. Na literatura, essa luta já está bem evidente. Na infantil, mesclam-se, em pé de igualdade, personagens das várias raças, e também é abordado frontalmente o problema do racismo, considerado como uma das grandes injustiças humanas e sociais. (COELHO, 2008, p. 27).

A professora ou professor da educação infantil e/ou ensino fundamental I pode e deve utilizar o recurso da oralidade para a difusão de textos que se encaixem aos objetivos já citados. Inclusive a oralidade é uma marca da cultura dos povos tradicionais africanos, assim como, dos povos tradicionais brasileiros. O livro Amanhecer Esmeralda de Ferréz e Histórias da Preta de Heloisa Pires Lima são úteis para o desenvolvimento do trabalho de aproximação das crianças à literatura afro-brasileira. Ferréz conta a história de uma garotinha negra, moradora de uma favela, que se cuidava sozinha, pois a mãe trabalha e o pai era alcoólatra, a primeira vista parece ser mais uma história triste, mas não é assim, a personagem recebe ajuda de alguns adultos, se descobre uma menina bonita tendo seus traços africanos e seus cabelos valorizados, no fim presenciamos uma história de transformação de toda uma comunidade a partir do resgate da autoestima de uma menina. Já Heloisa Pires Lima, desenvolveu uma narrativa mais longa, em que conta das raízes africanas até o presente dos afro-brasileiros, passeando pelas lendas, tradições e religiosidade do africano, costurando a história de modo que a personagem Preta a contasse, contasse sua história de afro-brasileira.
Esses dois livros são exemplos de possibilidades para o trabalho com as crianças pequenas, são capazes de introduzir o tema África, e acima de tudo, fazerem com que essas crianças se reconheçam a partir de modelos positivos.


5 – Considerações finais

Toda a lei é, ou deveria ser criada a partir de demandas da sociedade, no caso da lei 10.639/03 essa necessidade pode ser ratificada a partir da breve análise a que este artigo se dedicou. Do ponto de vista histórico é possível construir argumentos que fundamentam essa necessidade. A situação da chegada dos africanos em terras brasileiras, a cruel exploração a que foram submetidos por mais de três séculos, a segregação ocorrida após a abolição e mesmo com todos esses reveses, esse povo conseguiu perpetuar sua cultura e sua religião por meio de movimentos de resistência.
O apagamento oficial da história do povo negro e a tentativa de calar as manifestações culturais e artísticas se deram devido ao mito da democracia racial e a política do branqueamento, ações que sofreram resistência constante, porém somente a partir da década de 1960, com os estudos acadêmicos realizados, esse cenário começou a ser alterado, ainda que lentamente.
Com a entrada em vigor da referida lei a sociedade como um todo e mais especificamente os órgãos governamentais ligados à educação e universidades com cursos de licenciatura foram obrigados a traçar uma nova e importante estratégia para atendê-la e principalmente atender a demanda social defendida pelos movimentos em prol aos direitos do povo afro-brasileiro. Com essa mudança de perspectiva o espaço escolar e a professora ou professor passou a ser agente transformador e disseminador dessa história e cultura. As dificuldades enfrentadas pela escola brasileira e a resistência em reconhecer a necessidade dessa lei ainda contribui para a morosidade em atendê-la plenamente, mas indiscutivelmente, é um grande benefício para as crianças negras e brancas terem acesso ao conhecimento dessa história, pois ela é parte, em alguma medida, de todo o cidadão brasileiro. O conhecimento dessa história e cultura tende a diminuir algumas situações de hostilidade ainda presentes na sociedade e promover o convívio afetuoso e pacífico entre as crianças e as pessoas de modo geral, pois o outro é só diferente, nem melhor nem pior, apenas diferente.
Mediando esse trabalho a literatura se mostra um eficiente instrumento, pois ela é capaz de promover a reflexão, formação de valores positivos e transformação de situações. Permite que os indivíduos se reconheçam a partir de modelos positivos, discursos de solidariedade e fruição do belo.


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